Desafio da trilha de Santa Cruz, Cordillera Blanca, Peru


Quebrada de Santa Cruz
Alta altitude, frio, vento e montanhas. Ano de 2016, pela primeira vez iria fazer uma trilha de longa duração sozinho e em zona montanhosa, algo mais desafiador, a trilha era a de Santa Cruz, na Cordillera Blanca, lugar onde as montanhas mais altas do Peru descansam.

04:00 da manhã, era um domingo, tudo mais ou menos pronto, saí de Huaraz em direção a Yungay em seguida tomei uma kombi até o pequeno povoado de Vaqueria à cerca de 3600m de altitude. Ao chegar por volta das 13:00, como estava sozinho, comecei a descer por um vale, muita poeira e um caminho em zig-zag, depois de um tempo percebi que havia tomado um caminho errado em uma bifurcação, tive que voltar quase 30 minutos, o caminho iria me levar a outro povoado, ainda bem que era apenas no início.

Algumas casas abandonadas entre o caminho.

De volta no caminho certo, cruzei o rio que passa pelo fundo do vale e tive que subir até chegar à um pequeno povoado. Estava muito cansado e nem havia almoçado. Já era quase 15:00. Pensei:"Se estou exausto agora, imagina nos próximos dias".

Resolvi ficar no pequeno povoado, além do cansaço, estava com o estômago ruim por ter comido algo preparado de uma forma não muito higiênica no dia anterior em Huaraz.

No povoado conheci uma senhora, ela estava grávida, me alugou um quartinho só para passar a noite. Mais tarde fui convidado para jantar por ela, a casa não tinha portas e as luzes eram provenientes de lamparinas. O marido da senhora que me alugou o quarto era o José, tinha por volta dos 25 anos,  ele me disse que era guarda do parque, Parque Nacional Huascarán, daquela área e fazia o controle de quem entrava e saía da zona do parque. Depois chegou o seu pai, que só falava em quechua, sentamos na mesa e começamos a conversar, o pai de José perguntava em quechua, José traduzia para o espanhol e eu respondia. Aproveitei para praticar um pouco do meu quechua básico com eles, fiz até um dicionário com algumas palavras desde quando estava em Cusco. Foi um daqueles dias que você não tem ideia de como irá terminar, gostei muito de estar ali com eles. Estou devendo até uma visita.

No dia seguinte, pela manhã, comprei algumas bananas em uma pequena taberna, sentei ao lado da rua. Enquanto comia, algumas crianças passaram, eu dei algumas bananas para elas.

Era hora continuar, ou melhor começar a caminhada. Eu tinha a sensação que estava enferrujado. Aquela mochila pesada, alta altitude, vamos lá! Afinal de contas eu estava ali para isso.

Início da caminhada pela manhã, caminho estreito e subindo!



Zona rural em meio as montanhas.

O meu corpo começava aos poucos a se adaptar a altitude, e a caminhada já começava a se tornar prazerosa, a paisagem ajudava muito.

Na entrada do Parque, encontrei José já trabalhando, conversamos, tomamos um pouco de café e depois nos despedimos, fiquei de voltar na casa dele, para revisita-lo.

De volta no caminho fiquei pensando que no dia anterior estava exausto e agora não mais, estava totalmente recuperado.

Vaquinha apreciando a paisagem e tomando um sol.


Olhando para trás, o caminho que já percorri.


Alguns burros de agências de turismo no caminho.


Chegando a primeira área destinada a camping, com muitas vacas.


Esse era o visual de dentro da minha barraca. Nevado Paria 5720m.

Terminei de montar minha barraca preparar algo para comer, estava em um vale, então a luz do dia não duraria tanto, a noite fria já chegava.

Vale que percorri.


Tomado pela escuridão já.

Outras pessoas que estavam fazendo a trilha naquele dia chegaram e montaram suas barracas, eu só vi pela manhã.

Na manhã seguinte vi mais três barracas, nós nos cumprimentamos de longe e às 09:00 todos já haviam saído, eu estava terminando de arrumar minha mochila e quase brigando com uma vaca que queria o meu café.

De volta ao caminho,um passo de cada vez, estava feliz, tudo estava perfeito, tudo 100%. Caminhando e apreciando todo o poder da natureza.

Montanhas de um lado.


Montanhas à frente!


Subindo!

Havia começado a caminhada a 3300m de altitude, o objetivo desse dia era chegar aos 4750m e depois iria começar a descer. Sinceramente eu não estava confiante, pois não sabia o que vinha pela frente, ia sempre observando algum lugar para montar a barraca para continuar no próximo dia.

Incrível como a paisagem, a natureza tem o poder de transmitir energia. Quando eu caminhava subindo em zig-zag que parecia interminável e a montanha Taulliraju surgiu na minha frente, foi como se tivesse acionado uma energia extra não sei de onde.


Finalmente tinha conseguido chegar até aí, era uma subida que parecia interminável.

Pausa para apreciar a paisagem...


O caminho agora tinha a montanha como companhia.


Caminho com várias formações rochosas.


Última curva.

A última curva antes do maior desafio do dia se aproximava...

O Objetivo é cruzar esse imenso paredão. Pela foto não dá pra se ter uma ideia exata de espaço, o topo está a 4750m o chamado Punta Unión

Sentei, comi uns amendoins, pensei em voltar e tentar no dia seguinte, mas o dia estava tão bonito que resolvi arriscar pra ver no que ia dar.

Subindo e observando as montanhas.

Na subida encontrei mais duas pessoas que estavam no camping e que tinham saído antes de mim, era um argentino e um israelense, estavam parados recuperando o fôlego, eu também parei um pouco, não dava muito para conversar ali, tínhamos que descansar e continuar subindo, pois o tempo lá em cima poderia mudar e a luz do sol poderia diminuir com o final do dia que já se aproximava.

Eu dava cinco passos e parava quase 5 minutos, o coração acelerava com a falta de oxigênio, e assim caminhávamos bem devagar, era o corpo chegando ao seu limite. Naquele momento não tinha mais volta, o pensamento era só o de continuar.

Já estávamos caminhando na sombra da montanha com frio e vento.


Olhando o caminho de volta, viemos de lá!


You shall not pass! Lembrava sempre do Senhor Dos Anéis, e assim era com os dois.


Quase atravessando...

Próximo a fenda , finalmente...

Foto da vitória a 4750m, Punta Union!

Foi um prazer imenso chegar aí, estava muito feliz por ter conseguido, sabia que o mais difícil seria chegar até aí. Fiquei por um bom tempo apreciando o momento, escutando o vento que vinha pelas montanhas ou o gelo que se desprendia, pensando em várias coisas, de por exemplo como tudo aquilo havia surgido e de como nós, seres humanos, fazemos parte disso tudo, mesmo sendo um dos principais destruidores.

E meditando, eis que surge na minha frente a minha fotografia preferida de todas...

Quebrada de Santa Cruz, Cordillera Blanca, Peru.

Como tudo na vida tem um fim. Mochila nas costas, hora de continuar o caminho em direção ao vale que está iluminado da foto acima.

A caminhada para descer para mim é mais tranquila, consigo ser bem rápido.

Laguna Taullicocha com sua água azul turquesa e o meu amigo israelense se aproximando.


Olhando para trás

O israelense não estava muito bem, eu sempre parava para observar aonde ele estava. Porém teríamos que ser rápidos, pois a noite se aproximava.

Caminho de descida em zig-zag


Montanha Taulliraju 5830m.

Finalmente chegamos na área de camping, montei a minha barraca, fiz minha janta, conversei um pouco com o argentino e o israelense e fui dormir pois estava muito cansando de tanto caminhar.

Artesonraju 6025m.


Taulliraju recebendo os últimos raios do dia.


Boa noite montanhas, vista da barraca.

A noite, pela madrugada, acordei para ver o céu totalmente estrelado.

Na manhã seguinte, céu azulado...

Nevado Quitaraju 6040m e Alpamayo 5947m.

A opção nesse dia seria caminhar mais de 20Km até o povoado de Cashapampa, a 2920m de altitude, ou parar em algum camping para ficar mais uma noite, como estava com pouca comida decidi tentar ir direto a Cashapampa sem parar. Desci junto com o argentino, começamos exatamente às 09:00 da manhã.

Nevado Artesonraju 6025m.


Caminho a seguir, muita areia devido ao transbordamento de lagunas que estão acima dos vales próximos aos nevados.


Morte no caminho.


Nevado Alpamayo 5947m e flores típicas da Cordillera Blanca.


Montanha Taulliraju ficando cada vez mais longe, incrível como no dia anterior viemos lá de cima!


Cavalos pastando.


Montanha Taulliraju 5830m, Cordillera Blanca, Peru.


Atravessando o rio da Quebrada Santa Cruz.


Nevado Quitaraju 6036m.

Me distanciei do argentino, da japonesa e do suíço que conheci no caminho. O último trecho é um pouco complicado com muitas rochas na lateral da montanha, o vento frio e a visão do vale lá embaixo dificultam um pouco. Cheguei em Cashapampa quase 17:30, depois de um tempo eles chegaram e conseguimos um carro que nos levaria para a cidade de Caraz, para em seguida voltarmos a Huaraz. Chegamos em Huaraz mortos de cansado. Mas foi uma aventura e tanto.

Até a próxima!

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